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NEM TODO LABRADOR É GUIA DE CEGO
A
maioria das pessoas sonha em comprar aquele Labrador lindo,
calminho, bonito e saudável dos filmes americanos.
Porém quando compram o cachorrinho, o levam pra casa
e ele começa a crescer, percebem que o sonho se tornou,
para alguns, um pesadelo!
É verdade. Estamos
cada vez mais recebendo alunos, telefonemas e e-mails de
pessoas dizendo que não aguentam mais seus Labradores
porque eles destroem tudo, não param quietos nunca,
comem pra caramba, roubam sapatos, papel higiênico,
meias, pedrinhas de jardim... e pasmem, estão mordendo
a mão dos donos!!
É claro que tudo
isso aí em cima poderia ser feito por um cachorro
de qualquer raça, principalmente se ele for filhote,
porém a questão é que as pessoas estão
inconformadas com o resultado frustrante de suas expectativas
exageradas com relação a uma raça específica.
Muitas estão se sentindo enganadas e arrependidas
por terem comprado um exemplar de Labrador.
Mas será que
toda a culpa está no coitado do peludo? Acho que
não. O Labrador é uma raça ótima,
realmente amável, super carinhosa com outros bichos
e com outras pessoas e um perfeito exemplar para trabalho.
Formam uma ótima dupla com os caçadores de
patos, pois após dado o tiro, eles vão até
a caça, a pegam com a boca sem dar um sequer arranhãozinho
na ave e a entregam ao caçador. Eles também
atuam com extremo desempenho em funções mais
modernas trabalhando como farejadores de drogas em aeroportos,
salvando pessoas em escombros e no mar, sendo guia de cegos
e ajudando pessoas com Esclerose Múltipla e outras
deficiências físicas ou motoras.Então
você deve estar pensando: “O que está
acontecendo com o meu Labrador?”.
Muitas pessoas não
entendem que não são todos os Labradores que
são guias de cego. Não é só
porque o peludo nasceu Labrador que ele agora será
um ótimo cão trabalhador, um perfeito cão
de salvamento. Para que alguns poucos cães Labradores
se tornem guias é feito um rigoroso trabalho de seleção
e um profundo treinamento.
Para se ter uma idéia
do que é esse trabalho, durante o primeiro ano de
vida do cão, já pré-selecionado para
ser um possível cão-guia, já que seus
pais, avós, bisavós, foram também guias,
ele vive com uma família voluntária que o
leva para todos os cantos da cidade. A família o
leva desde pequeno para restaurantes, cinemas, lojas, padarias,
açougues, parques, todo o lugar que você puder
imaginar. Além disso, durante este tempo todo esta
família se compromete em treinar o filhote com extrema
disciplina nos comandos básicos de obediência.
Depois de um ano é
que começa o treinamento de guia propriamente dito.
Isso caso ele seja aprovado. Com mais ou menos um ano, a
família entrega o cão de volta para o centro
de treinamento para ele começar a aprender os comandos
para ser um guia. Lá ele fica uns outros três
meses junto aos professores. Depois disso é que entra
o treinamento intenso de um mês com a pessoa que o
terá como guia, e mesmo assim não é
qualquer cachorro que se adapta a qualquer dono. São
várias etapas e um longo caminho para o cão
se tornar um guia de cego. A cada etapa ele poderá
falhar e ser retirado do programa. É muito mais fácil
ele ser reprovado do que aprovado. Portanto é praticamente
impossível que aquele Labrador do seu vizinho que
você está pensando em comprar seja um dia um
cão calminho e tranquilo que nem os guias de cego.
É mais ou menos assim, quantas crianças superdotadas
você já conheceu na vida? Quantos gênios
você já viu em pessoa?
Está pensando
nos Labradores farejadores de drogas e de busca e salvamento?Estes
são ainda mais especiais.São justamente os
Labs que ninguém quer, que são super agitados,
que querem fazer “coisas” o dia inteiro, que
não param quietos um minuto, que são destrutivos
se deixados sozinhos, obstinados, focados e teimosos quando
querem um brinquedo, os pré-selecionados para fazer
um trabalho tão preciso e de tanta valia para os
humanos.Justamente aqueles que um mortal qualquer não
quer nem ver por perto que, se treinados e trabalhados adequadamente,
se tornam maravilhosos.O “truque” aqui é
trabalho, trabalho, trabalho...
Agora falando dos Labradores
americanos que são pets. Lá a maioria é
castrada e mora em casas com quintal e muito espaço.
Lá os americanos levam os cães aos parques,
viajam com os cães e os exercitam muito. O cão
faz parte da rotina da família e existe uma preocupação
grande em preservar o temperamento do Labrador e em extinguir
a displasia. É claro, que aqui no Brasil, também
existem criadores e donos sérios, mas a grande maioria
não está tão ciente de tudo isso.Infelizmente
a raça Labrador alcançou um nível de
comercialização muito grande. Provavelmente
em breve, ela será uma das raças mais vendidas
do Brasil, desbancando outras raças tradicionalmente
adquiridas como cão de companhia. Como todo mundo
quer um, tem muita gente virando criador e vendendo filhotes
totalmente fora do padrão. Sem contar com o pior
que é vender só para ganhar dinheiro, sem
explicar nada sobre as características do peludo
para o futuro dono, sem se importar se o cão, ou
a raça é adequada paras o ritmo de vida do
novo dono. Com isso chegamos a um ponto que a própria
raça sai perdendo. As pessoas, sonhando com aquele
cão lindo nadando nas águas gélidas
do Colorado, compram o bicho e o leva pra casa. Já
que temos uma vida agitada, acabamos nos esquecendo de levá-lo
de vez em quando para nadar. Esquecemos que ele precisa
se exercitar três vezes por dia por no mínimo
40 minutos. Esquecemos que ele, se deixarmos, come o pacote
inteiro de ração de uma vez só.
Vejo nas ruas Labradores
obesos. É uma pena. Os Labradores sofrem muito com
isso. São comilões sim, mas somos nós
donos que os alimentamos. Não devemos permitir que
isso aconteça. Para piorar, é cada vez mais
alto o número de cães com displasia coxo-femural.
Se o seu cão tem essa doença, NÃO O
DEIXE cruzar. Temos que fazer a nossa parte. Já que
chegamos a um ponto tão comercial, não podemos
fazer vista grossa para essa doença. Imaginem 12
filhotinhos displásicos, cheios de dor... Não
há necessidade disso. Evitar este mal é mais
simples do que parece, basta radiografar seu cão
com um veterinário especializado após um ano
de idade e não cruzá-lo se for portador da
doença. Da mesma forma, só compre um filhote
se ambos os pais forem radiografados e possuírem
o laudo atestando a ausência de displasia. Por mais
que alguns “jurem” que seu cão não
tem nada e que “vários” veterinários
disseram que ele não tem nada, somente o laudo radiológico
é capaz de detectar a doença.
Amo a raça Labrador.
A propósito tenho dois. Optei por comprar essa raça,
pois morei nos Estados Unidos cinco anos, e tive, como muitos,
a ilusão de que todos os Labradores eram como os
cães americanos. Mas aqui no Brasil o controle da
raça ainda não é tão sério
assim. A minha fêmea, a Julie, é chocolate,
tem três anos e é castrada, pois tem displasia
grau moderado. Como poderia imaginar que ela tinha essa
doença quando a comprei? Impossível. Mas graças
a Deus sempre tive a preocupação que um dia
isso poderia acontecer. Até agora ela não
apresenta nenhum sinal da doença. Mas isso é
devido a minha força de vontade. Levo-a sempre para
nadar, ela nunca corre no asfalto ou em chão escorregadio
e a mantenho no peso ideal. Foi muito difícil criar
a Julie. Morava num apartamento pequeno, estudava e trabalhava
o dia todo. É claro que ela destruiu todo o sofá,
as paredes, os fios de telefone... Mesmo assim, todo dia
de manhã e a noite a levava para longas caminhadas.Anos
mais tarde comprei outro Labrador, o Freddy. Ele é
preto e está com um ano e meio. Muito mais bagunceiro
que a Julie. Impossível manter a sanidade mental
com os dois dentro de um apartamento. Mesmo eles saindo
três vezes por dia durante 40 minutos, eles sentem
a necessidade de ter um espaço maior. Toda hora eles
vem com um brinquedo na boca para eu jogar, para eu correr
atrás deles. É muito difícil. Resolvi
que seria melhor para todos nós que eles fossem de
15 em 15 dias para minha casa de praia. Lá tem muito
espaço e eles ficam em contato com a água
o tempo todo.Percebo todo dia sinais de estresse e tédio
quando eles ficam muito tempo sem ir para a praia. Eles
ficam muito mais ansiosos, pulando sem parar, pegando coisas
nas latas de lixo e em cima da mesa, lambendo as patas sem
parar. É muito triste.
Sempre que penso em
Labradores me lembro de uma propaganda que passava na TV
a cabo há pouco tempo.Era uma propaganda de uma marca
de whisky e em linhas básicas era assim: Uma mulher
lindíssima, arrumada e perfumada espera pelo companheiro
para jantar.Uma mesa romanticamente arrumada espera o casal.Ele
chega, começam a se beijar e de repente toca o telefone
celular dele.Ele dá mais um beijo na companheira
e sai levando seu estetoscópio.Passam-se horas e
horas.A mulher espera pacientemente tomando sua birita.Finalmente
ele chega no meio da madrugada. Ela linda, loira, e compreensiva
o beija e abraça (hahahaha).Aí entra em cena
um lindo labrador preto, caminhando camalmente na direção
dos donos, carregando a coleira na boca. Corta a cena e
aparecem os donos passeando com o cachorro, o dia começando
a amanhecer, todo mundo agasalhado, pois parece bem frio.
O que isso tem a ver
com o nosso texto? A maioria das pessoas que assiste este
comercial acha lindo o labrador, todo bonitinho e educado
trazendo a coleira na boca, pedindo para passear.O que eu
vejo quando assisto este comercial? Um Lab indo em direção
aos donos, provavelmente pensando:“Não quero
nem saber se o jantar michou, se a madame tá de pileque
e o doutor tá morto de cansado por ter trabalhado
a noite toda... VOCÊS VÃO TER QUE ME LEVAR
PRA RUA AGORA!!!!!! Ah! E dane-se se tá o maior frio
lá fora. EU GOSTO!!!!!”.
Os Labradores precisam
de espaço, precisam de água, precisam de estímulos
físicos e mentais e não podem ser gordos.
Morder a mão das pessoas então, nem pensar!
São cães ativos, cujo propósito de
suas vidas é trabalhar junto com os seus donos. Pense
bem antes de comprar um Labrador. Depois pesquise muito
sobre a raça e sobre os criadores. Depois deixe passar
uns dias e repense. Dá muito trabalho ter um Labrador
que esteja dentro do padrão, os que não estão
então, são mais difíceis ainda. Caso
você compre um, você terá um compromisso
com a raça. Terá que mudar a rotina da sua
vida, para dar o mínimo de conforto e saúde
mental para o seu cão. Os Labradores agradecem.
Lucia Andrade
Treinadora e Especialista em Comportamento Canino
Lord Cão - Treinamento de Cães
e-mail: lucia@lordcao.com
http://www.lordcao.com
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